Medico cuiabano introduziu Homepatia no Brasil

Ao mesmo tempo que curava a nobreza e o presidente da República patrocinou jagunços para fazer rebelião em Mato Grosso

Da redação com Marcio Camilo

A medicina mato-grossense cuidou da elite brasileira por muito tempo. O médico mais famoso do final do Império era cuiabano. Suas mãos curavam a Princesa Isabel, seu marido o Conde D´Eu e toda a elite palaciana. Quando foi proclamada a República, sua clientela mudou, mas continuou sendo a elite palaciana. Foi médico de dois presidentes, Deodoro da Fonseca e Campos Sales. Tornou-se o responsável pela implantação de tratamento homeopático para os militares do Exército, após a cura do Marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet, ministro da guerra do início da República até 1902.

Deodoro era tratado com um remédio que Murtinho extraía de rãs, dentro de toda uma filosofia inovadora de tratamento que remetia aos conhecimentos deixados por Franz Anton Mesmer, a mais controvertida figura da história da Medicina. Mesmer teve a licença de médico cassada por promover curas dentro de padrões heterodoxos. Foi julgado por Benjamin Flanklin, Antoine Laurence do Lavoisier e Josep-Inácio Guihotin.

 Joaquim Murtinho também sofreu perseguições: foi denunciado, em razão das curas nada convencionais que promovia. Na época, dizia-se que Murtinho receitava aos pacientes remédios homeopáticos, que eram testados em cachorros. Relatos orais de pessoas que trabalharam na mansão do médico confirmam que ele fazia experiências nos animais.

O homeopata – catedrático em zoologia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro – defendia com vigor os seus métodos. Possuía excelente oratória e embasamento teórico, tanto que ousou contestar a intelectualidade do imperador D. Pedro II – considerado um dos homens mais cultos da época. “Sua majestade faz tudo isso automaticamente para satisfazer a sua vaidade científica. Sua Majestade procura os enfeites da Ciência com a mesma futilidade com que a moça faceira procura os enfeites da moda”, teria dito Murtinho, ao criticar a mania do imperador em querer questionar os métodos homeopáticos.

As curas milagrosas que praticava abriram os caminhos para a Política. Quando Campos Salles assumiu a presidência da República, levou o seu médico pessoal para o ministério da Fazenda. Apesar do contexto econômico nada favorável, Murtinho assume o posto com o objetivo de arrumar a casa, além de pagar a milionária dívida externa. Seguindo uma cartinha liberal ortodoxa, Murtinho cortou investimentos em obras públicas, aumentou impostos e criou o primeiro pacote econômico do Brasil: um conjunto de medidas que renovava a dívida brasileira junto a banqueiros ingleses e conseguia mais prazo para pagamento, que foi chamado de Funding-loan. Consagrou-se como o saneador das finanças do país.

Quando Murtinho morre aos 63 anos, ele é uma figura amada e idolatrada. No seu velório, realizado na mansão no bairro Santa Teresa (RJ), houve grande comoção. E tanto a elite quanto o povo mais humilde foram prestar as últimas homenagens a ele. No dia seguinte da sua morte, recebeu homenagens do Senado.  Quintino Bocaiúva, então presidente da casa, lembrou que “dele se pode dizer que foi um forte e um bom, que atravessava o oceano tempestuoso da vida espalhando benefícios, fazendo o bem e procurando com esforço e tenacidade a felicidade dos outros, procurava com o esforço de sua atividade as vantagens coletivas, das quais devia promanar o bem geral da coletividade da qual ele era, como indivíduo, uma esperança e um conforto”.      Murtinho também era implacável com seus inimigos. Chegou a apoiar o irmão na arregimentação de tropas de jagunços para combater na disputa pelo poder em Mato Grosso, em pelo menos uma oportunidade. No início da República, por volta de 1890, Manoel Murtinho chegou a invadir Cuiabá e obrigou a Assembleia Legislativa a anular a eleição da cidade e fazer uma nova, que teve a vitória do candidato do seu grupo político. Seu adversário então, Generoso Ponce de Arruda, se revolta com a situação e decide fazer o mesmo. Porém tuas tropas são duramente reprimidas, num massacre que durou cinco dias em pleno centro de Cuiabá. 

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