A metamorfose do jornalismo

Comunicação em tempos dos algorítimos

Segura A. J.

Ao abordar a metamorfose do jornalismo em função do surgimento do jornalismo on-line estou trilhaando um caminho que se inscreve dentro da realidade das novas tecnologias. O tema remete a encontros e desencontros das discussões que envolvem a atividade do jornalista e coloca no centro da problemática a sobrevivência do velho jornal de papel que foi um dos principais alavancadores da modernidade

Estas discussões, inconclusivas desde a década de 60 do século XX, têm sido feitas por vários caminhos. Phillip Meyr[1] chegou a retroceder até Robert Park para apontar que a utilização de metodologia científica seria a redenção do plano de negócio do jornal, hoje já acena com uma mudança de postura. Cremilda Medina, baseada nos resultados do projeto Novo Pacto da Ciência acredita que os afetos e uma relação dialógica/emocional com as fontes poderá resolver o problema, e Ronaldo Henn defendeu em “Os fluxos da notícia”, que o jornalismo teria que agregar a teoria dos sistemas para atender a necessidade de complexificação que o momento exige. 

Paralelamente os jornais, preocupados com a sobrevivência do modelo de negocio, também buscam caminhos. O ”Comitê dos Jornalistas preocupados” um grupo de 25 jornalistas norte-americanos após uma série de encontros para discutir o que ocorria com o jornalismo constatou que o jornalismo estava perdendo seu caráter de abordar fatos reais para aventurar-se no império da ficção, tal como o faziam os impressores do século XVII. O primeiro encontro foi em julho de 1997 e  quatro anos depois apresentaram à sociedade “The elements of journalism” [2], fruto das pesquisas que fizeram e redigido sob responsabilidade de Bill Kovach e Tom Rosentiel (2003). O trabalho demonstrava que depois de Watergate o jornalismo norte-americano havia tomado um rumo diferenciado da exigência do público e corrompia um elemento da estética da notícia comprometendo os aspectos que remetiam à veracidade.

NY Times criou um departamento específico[3] para atuar como laboratório de mídia pensando o jornal como um hibrido de provedor de conhecimento e de informação e em Harvard o tema é recorrente, visto pela ótica do Nieman Journalism Lab[4].

Não restam dúvidas das mudanças necessárias ao jornalismo neste século XXI no Brasil os jornais referenciais buscaram sucessivas reformas gráficas editoriais que vão da migração total ao jornalismo on-line (Jornal do Brasil) a remodelações[5] que nem sempre atendem as demandas do jornalismo impresso e passam ao largo da sua característica principal,

“… o jornal é apenas um operador entre um conjunto de operadores sócio-simbólicos sendo aparentemente, apenas o último: porque o sentido que leva aos leitores, estes, por sua vez, remanejam–no a partir do seu próprio campo mental e recolocam-no em circulação no ambiente cultural.” (Mouillaud, 2002. p.51)

Outras questões que se colocam é: como os “influenciadores” passaram a lidar com esta nova realidade? Como exercem o jornalismo conjugando o impresso (analógico) e o eletrônico (digital), simultaneamente? Como enfrentam a dimensão temporal, que agregada à sua prática, amputou das suas páginas a urgência da publicação de material informativo (notícia). Como exercer a condição de interpretar fatos para a construção dos saberes do cotidiano (reportagem, artigos, comentários, ensaios e crônicas)? Os jornais conseguem transformar-se em referência para gerações futuras?  Eles tornam-se alheio ao seu novo papel, numa época em que a informação caminha com a rapidez da eletricidade?

As discussões norte-americanas se pautam por uma visão hegemonicamente voltada ao plano de negócio o que leva Phillip Meyer a afirmar que “as notícias são mais um processo do que um produto” e que a Internet possibilita ao leitor o acesso ao fluxo de informação. Ele chega a apontar que o papel do jornalista seria dar a manutenção ao fluxo de notícias. Diferentemente Alberto Dines[6] ao delimitar em 24 horas a periodicidade do jornal diário, um “período noticioso completo”,  discorda da posição de Meyer, no que diz respeito ao impresso. Para ele o jornal fecha um ciclo com uma certa lógica, diferenciando-se do fluxo contínuo da internet. “O fluxo contínuo, como na Internet, é muito bom para se saber o que está acontecendo. Mas isso não permite ao leitor entender o que ocorre; o jornal, sim”.  Para ele o papel do jornalista está mais ligado às tarefas editoriais, “fecha o ciclo diário com lógica, costura tudo, arruma, edita, seleciona, hierarquiza”, recortando informações do fluxo contínuo e materializando-a em produto jornalístico. “Isso, a Internet não pode fazer”.

Ante este quadro um dos objetos deste estudo prende-se à discussão sobre as posturas que propõe abordar o jornalismo em suas várias adjetivações. Acredito que são atitudes fragmentadas e, raramente não contemplam a formação do jornalista dentro do seu novo papel social, limitando-o ao provimento de informação, com maior ou menor aproximação da geração de sentidos na sociedade. que justifica a complexificação do papel do jornalista é a competência para a tranformação do fluxo de informação, presente no tempo continuo, em coisa, sustância de análise que permite ao leitor  entender o seu tempo, como quer Dines. 

Numa coisa,no entânto há uma concordância com Dines e Meyer e todos os que discutem a necessidade de mudanças no papel do jornalismo. O jornalista precisa de um up-grade deontológico para fazer frente a evolução da tecnologia, como entende  Lucien Sfez[7] ao vêr a figura epistêmica da comunicação dividida em duas chaves, uma contendo um imperativo de cunho tecnológico e outro com abrangência nas formas de representação e expressão, ou seja, dos “procedimentos de uso da comunicação pela tecnologia”. Então a formação profissional do jornalista  se agrega ao objeto de estudo.

O  jornalismo, ao mesmo tempo que assimilou as inovações tecnológicas na produção dos jornais durante mais de cinco séculos, ainda mantém o seu espírito preso um velho paradigma desenvolvido em tempos de linotipo e telégrafo. (a pirâmide invertida). Sodré (1996) acredita que a emergência dos tempos atuais “desenraiza a consciência desenhada por Descartes”. Assim o jornalismo alcança um outro nível de complexidade compatível com os tempos atuais, com a inclusão de uma Teoria de Sistemas Abertos como ferramenta para interpretar os fatos jornalísticos na sociedade como defende Henn (2002) e, convocando Edgar Morin,

“(…) precisamos de um pensamento apto a apreender a multidimensionalidade das realidades, a conhecer o jogo das interações e retroações, a afrontar as complexidades mais do que ceder aos maniqueísmos ideológicos ou as mutilações tecnocráticas – que só reconhecem realidades arbitrariamente compartimentadas e são cegas para o que não é quantificável. Precisamos abandonar a falsa Racionalidade. (Morin, 2002 p.112)

A principal pergunta que pode ser respondida e que no meu entender seria a chave do desenvolvimento do tema é: Qual é o jornalismo necessário para os dias de hoje? Esta pergunta nos leva a outras questões: Qual deve ser a formação dos jornalistas para cumprir sua missão? Dentro das três linguagens classicas (informativo, interpretativo e opinativo) é possível estabelecer uma que deve assumir a preponderancia no jornal?


NOTAS

[1] Philip Meyer é professor emérito na Escola de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade da Carolina do Norte

[2] Kovach, Bil e Rosentiel, Tom (Tradução de Wladir Dupont) Os elementos do jornalismo–O que os jornalistas devem saber e o público exigir, São Paulo, Geração Editorial, 2003.

[3] http://www.nytimesknownow.com/, acessado em 08/03/2012

[4] http://www.nytco.com/company/Innovation_and_Technology/ResearchandDevelopment.html, acessado a partir de outubro 2011

[5] Entre outras coisas começaram a operar por meio de redes sociais como o Orkut, Twitter e  Blogs em que o noticiário é exposto no momento da sua ocorrência,  como  metodologia eficaz  de aproximar o veículo de sua audiência.

[6] Alberto Dines é responsável pelo site observatório de Imprensa ele deu estas declaraçãoes em entrevista ao jornal O Dia, do Rio de janeiro. http://odia.ig.com.br/portal/rio/alberto-dines-o-jornal-vai-continuar-como-refer%C3%AAncia-1.415283acessado em 06-03-2012

[7] SFEZ , Lucien  La Comunicacion, col. Que sais-je? N. 22.567, PUF, citado por SODRÉ, Muniz , in Reinventando a Cultura, Petrópolis, Vozes, 1996

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